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A era do self ou da política da identidade tem se caracterizado pelas demandas em torno ao reconhecimento, somadas às históricas reivindicações pela redistribuição, que se associam às intensas lutas dos movimentos sociais, às profundas críticas ao capitalismo, ao colonialismo e ao patriarcado. Como resultado, foram produzidos diversos registros teóricos e analíticos interseccionando marcadores sociais tais como classe, raça, sexualidade, gênero e religião para abordar diversas controvérsias enquadradas como problemas públicos em tanto geram mobilização de agentes e mudanças sociais. A partir de variadas manifestações emergiram significativas conquistas no campo dos direitos que resultaram em políticas públicas, seja pela intervenção de grupos sociais, de instituições, de partidos políticos ou desde a exigência judicial de um caso específico que se tornaria questão pública coletiva.
Porém, a ampliação e democratização de direitos têm sido contestada por parte de diversos segmentos. Por exemplo, perante a inclusão do enfoque de gênero como iniciativa social e/ou governamental se recuperou e propagou o termo “ideologia de gênero” como contraparte das políticas públicas em prol da diversidade. Ou também, perante a forte crítica da valorização dos atributos masculinos para contrarrestar o histórico impacto do patriarcado, que inclusive levou a falar de crise da masculinidade, vários homens, seja desde o individual ou desde o coletivo, têm se organizado para contestar a tal crise, superestimando a usual autoridade, força, dominação, privilégio e controle.
Tanto as conquistas e lutas pelo reconhecimento assim como suas resistências têm se visibilizado de forma mais aflorada mediante tecnologia digital. No caso concreto que ocupa estas linhas em torno às resistências e, especificamente, à acometida da masculinidade em chave religiosa mostram como esta contraofensiva se reproduz como discurso autorizado e ganha audiências entre diversas camadas, a partir de espaços de socialização e dispositivos de formação de sujeitos religiosos baseados numa masculinidade bíblica. Existem diversos níveis de machismo e de masculinidades e, apesar que algumas delas estão em desconstrução e transformação, a resistência de diversos segmentos perante as transformações sociais e a ampliação de direitos, que muitos homens descrevem como ameaça e apagamento de sua identidade, representa mais uma forma de persistência do patriarcado. Porém, cabe destacar que isto não resta a iminente força e impacto da luta das mulheres.
Existe diversidade de espaços digitais e agentes que promovem a resistência masculina como se demonstra, por exemplo, na “machosfera[1]”, que além de propiciar os já conhecidos papéis masculinos, mostra o homem como vítima da mulher, constrói e reproduz a narrativa de que o feminismo e o enfoque de gênero avançaram às custas dos direitos e da dignidade dos homens. Este tipo de espaço se torna terreno fértil para muitos tipos de homens, desde aqueles que em certos contextos públicos não conseguem exercer o domínio violento que gostariam, mas o afloram ao encontrar uma comunidade que incentiva enquadrar esse tipo de valoração como “frustrações” ou restrições à livre manifestação, até para aqueles que mesmo exercendo diversas violências publicamente encontram nesses espaços um receptáculo de apoio e valoração masculina.
Este permanente confronto destaca a insistência por definir o que seria o masculino “legítimo” e evidencia a tensão em torno do habitus, do capital simbólico, implícito nessa experiência, assim como os valores em transformação que se contrapõem ao hipermasculino. A disputa pela masculinidade se dá desde várias frentes e instâncias para deslegitimar não apenas as conquistas das mulheres, mas também as tentativas de desconstrução da masculinidade hegemônica, que estigmatiza e deprecia a aqueles que tentam outras formas de agir sendo nomeados com apelos como efeminados ou carentes de firmeza.
Esta questão em disputa dialoga diretamente tanto com o auge dos valores que articula a extrema direita, quanto com o neoconservadorismo, e com a formação de certo tipo de sujeitos religiosos que visam reformular a sociedade como um todo. Não é novidade que dentro da doutrina cristã, espalhada em sociedades ocidentais como a nossa, o homem se configura como a cabeça e a semente da família, aquele que leva o controle e a mulher como aquela que se sujeita para o bom funcionamento de qualquer núcleo social.
Mas, também cabe lembrar que dadas as mudanças sociais e de estruturas mentais, algumas igrejas de inspiração progressista pregam que essa doutrina de supremacia masculina tem matizes e que ao invés de reproduzir relações de poder trata-se de convivência mais recíproca. No entanto, com o auge do fenômeno religioso e, especificamente, de certas lideranças neopentecostais e organizações político-religiosas que promovem moralidades normativas, resistindo-se à ampliação de direitos para camadas historicamente marginalizadas, que continuam reproduzindo discursos para o controle dos corpos, assim como a insistente associação da sexualidade com crises de valores, de instituições e de nação, entre outras tradicionais pregações amplamente difundidas, funcionam como um dos alicerces dos extremismos numa conjuntura permeada pela contraofensiva e o combate ao outro tido como inimigo.
Nesse contexto, pastores e associações de crentes geram espaços de sociabilidade em torno da masculinidade bíblica como solução para uma sociedade caída, na qual os homens como responsáveis pela ordem perfeita devem mantê-la para que o ecossistema não entre em desordem. Um exemplo disto é o Machonaria ou Confraria Nacional de Homensque representa o maior movimento de masculinidade da América Latina e que pretende o resgate da “hombridade segundo os ensinamentos de Jesus Cristo em sua totalidade cristocêntrica, amando o que Deus ama e odiando tudo o que Deus odeia”[2].
Outro exemplo de grupos cristãos para homens são os Legendários, fundado em 2015 por um pastor guatemalteco da Igreja Casa de Deus. Esta iniciativa, que tem como mote devolver o herói a cada família, se estendeu pelo resto da região e de acordo com o site deste grupo[3] o México conta com 6.745 seguidores ou legendários, o Brasil com 10.128, a Colômbia com 1.655 e os EUA com 7.225. A Embaixada, como é nomeada a igreja brasileira que lidera a versão de Legendários neste país, mediante seu pastor, afirma que qualquer homem maior de idade pode participar das experiências promovidas pelo grupo destacando-se a subida a uma montanha, porém o que acontece em cima desta não é relatado, mas o fato é que custa muito dinheiro.
Em muitos casos, homens que se percebem deslocados, injustiçados, reféns do “complô feminino” ou que perante a ideia de uma sociedade em decadência moral se sentem chamados a impor ordem, seja pela iluminação divina ou pelo beneplácito próprio, terminou criando uma contraofensiva mediante grupos inspirados na The Red Pill ou o MGTOW[4], que ganharam muitos adeptos depois da eleição de Trump em 2017, ou mediante comunidades como as descritas em parágrafos anteriores que se espalham através do mercado virtual entre homens de todas as idades, inclusive jovens e adolescentes para alertá-los sobre os “perigos” de relacionamentos com mulheres.
Embora haja que reconhecer que historicamente a construção social em torno do “dever ser” do homem tem pesado muito e criado uma série de fardos que acabaram distorcendo sua sociabilidade, inclusive alguns comportamentos que até há um tempo eram bem recebidos por algumas mulheres já não são mais, o qual criou certa confusão, o fato é que isto estaria longe de justificar a arremetida empreendida por várias camadas de homens para enfrentar a tal crise da masculinidade, já que mediante o reforço de valores masculinos hegemônicos com roupagem de transformação ora religiosa, ora cultural, de fundo se promove aquela hipermasculinidade que continua deixando o homem como o grande provedor e a mulher como propriedade, isto é, a lógica que ainda se resiste a abrir espaço para outras formas de pensar e de agir.
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Nayive Castellanos Villamil. Pós-doutoranda no IIJ-UNAM
[1] Palavra formada do man + esfera. É uma rede criada para atingir os problemas dos homens.
[2] https://machonaria.com/
[3] https://legendarios.org.br/
[4] Men Going their Own Way
Hechos y Derechos, vol. 17, núm. 92, marzo-abril de 2026, es una publicación bimestral editada por la Universidad Nacional Autónoma de México, Ciudad Universitaria, Delegación Coyoacán, C.P. 04510, Ciudad de México, por medio del Instituto de Investigaciones Jurídicas, Circuito Mario de la Cueva s/n, Ciudad Universitaria, C.P. 04510, Ciudad de México, Tel. (52) 55 56 22 74 74, https://blog-revistas.juridicas.unam.mx/hechos-y-derechos/. Editor responsable Imer Benjamín Flores Mendoza. Reserva de Derechos al Uso Exclusivo núm. 04-2014-052217121400-203, otorgado por el Instituto Nacional del Derecho de Autor, ISSN (versión electrónica): 2448-4725. Responsable de la última actualización de este número: Coordinación de Revistas del Instituto de Investigaciones Jurídicas, Ricardo Hernández Montes de Oca, Circuito Mario de la Cueva s/n, Ciudad Universitaria, C. P. 04510, Ciudad de México, fecha de la última modificación: marzo de 2026.
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